A ideia de nação nos projetos dos físicos brasileiros em meados do século XX a partir da interação entre César Lattes e José Leite Lopes

Heráclio Tavares
Antonio Augusto Passos Videira

*texto adaptado de artigo (de mesmo título) publicado na Revista de História da USP,
no 179, 2020
.

Entre meados do século XIX e o final da Segunda Guerra Mundial, era comum encontrar quem defendesse a tese, atribuída
a Louis Pasteur (1822-1895), de que a ciência não tem pátria, enquanto o cientista sim. Tal ideia afirmaria a
universalidade da ciência. Esta proposta sofreu críticas, formuladas por sujeitos históricos que transitavam pelos
domínios da ciência, filosofia ou política (VIDEIRA, 2005).

Apesar do grau de polêmica dessa concepção, pode-se afirmar que a década de 1930 modificou o modo como o cientista
vivia a relação entre a ciência, praticada em um espaço especialmente concebido, e a política. Desde então, este
espaço concebido para a prática científica não evitaria a presença desta última. No Brasil, a função da ciência era
discutida ao mesmo tempo em que se debatia o melhor sistema de ensino a adotar, bem como deveríamos organizar nossas
escolas e universidades. Aos professores e estudantes das nossas primeiras universidades não seria fácil isentar-se
desses debates, pois eles diziam respeito ao seu próprio campo de atuação. Um ensinamento recebido pelas gerações
nascidas a partir da década de 1920 no Brasil concernia à importância da nacionalidade, entendida como a supressão das
particularidades regionais e o reforço do ente político Estado brasileiro.

Em sua origem europeia, o termo “nacionalismo” referia-se ao conjunto de sentimentos que populações compartilhavam ao
longo do processo de formação de seus Estados. Segundo Ernest Renan (1990), a ideia de nação seria um princípio
espiritual moldado por um legado de memórias e pelos planos de partilhar essa herança cultural recebida.
“Nacionalismo” seria um artefato cultural, produto histórico da modernidade, em que a linguagem e a educação assumem
papel central, seja na invenção de tradições (HOBSBAWM, 1990) seja na concepção de “una comunidad política
imaginada como inherentemente limitada y soberana”
(ANDERSON, 1993, p. 23) na qual a criação de uma
narrativa coletiva por intelectuais ligados aos meios para divulgá-la orienta a construção de uma unidade
compartilhada (CALHOUN, 1997). Extravasando estes pressupostos, a prática dos cientistas se torna um elemento chave
para se pensar a ciência como ação política, desde que seus valores e resultados sejam incorporados nos projetos de
nação desejada (REINGOLD, 1991).

No caso do físico José Leite Lopes (1918-2006), esta forma de ver sua prática profissional identificada com os
anseios sociais de seus compatriotas aparece em seu discurso de formatura, a primeira turma de diplomados da
Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi). Leite Lopes compartilhou com a plateia as questões que discutia com seus
pares:

Qual será, pois, o significado preciso desta reunião? Como poderá ela ser situada no universo humano que nos
envolve, quais as responsabilidades de trabalho que ela simboliza para cada um de nós? Responder a estas
perguntas é justamente sintetizar a formação que recebemos nesta Casa, o nosso pensamento na coletividade
brasileira, a nossa concepção de mundo. (LEITE LOPES, 2012, p. 07-08. Link)

Já com o físico César Lattes (1924-2004), o sentimento de pertencimento a uma coletividade, que partilha os mesmos
elementos culturais, emergiu logo após ele ter saído da Universidade de São Paulo (USP) e chegado para trabalhar na
Universidade de Bristol, em 1946: “Na minha opinião, ciência em si não é tudo,” escreveu o jovem físico de Bristol a
Leite Lopes, para, em seguida, revelar que estava:

[...] perfeitamente disposto a ir trabalhar aí em condições muito menos favoráveis do que aqui (estou me
referindo à parte científica e possibilidade material de pesquisa, não à parte profissional), porque
acho que é muito mais interessante e difícil conseguir formar uma boa escola num ambiente precário do que
ganhar o premio Nobel trabalhando no melhor laboratório de física do mundo.
A satisfação HUMANA que
a gente sente ao verificar que está sendo útil para que outros também tenham a oportunidade de pesquisar é muito
melhor do que a que se obtém de uma pesquisa feita sob ótimas condições de trabalho. (LATTES,
12/08/1946 apud ALMEIDA, 1995, p. 30-31
, grifos nossos)

Fonte: Arquivo da Universidade de Bristol

Fonte: Arquivo da Universidade de Bristol

A ciência tem um valor intrínseco, e partilhar seu conhecimento com outros brasileiros era o que pensava Lattes, que
percebia e expressava seu sentimento pátrio:

Além disso, existe aquela coisa idiota que se chama patriotismo e, não sei porquê, embora nunca tivesse pensado
na mesma, começou a mexer lá por dentro ha uns tempos atrás… Estou, pois, interessado em voltar logo que tenha
uma formação suficiente e desde que haja possibilidade (12/08/1946
apud ALMEIDA, 1995, p. 30-31
).

Fotografia das trajetórias do méson pi decaindo no méson mi.

Fonte: Arquivo pessoal dos autores

A ideia de nacionalismo de Lattes e Leite Lopes indica o papel ativo dos cidadãos na construção da nação desejada,
presente no pós-Segunda Guerra (SMITH 2003). Esta concepção de ação direcionada explica como físicos formados nas
Universidades brasileiras, principalmente na USP e na FNFi, aliaram o prestígio científico alcançado pelos resultados de César Lattes, em Bristol
(1947) e em Berkeley (1948) (Links 01 e 02), ao sentimento que nutriam pelo
Brasil para transformá-los em instituições, cujo objetivo era fomentar a ciência em geral, e a física em particular,
no país em uma chave nacionalista. Em 1948, Leite Lopes explicita esta ideia, ao discursar na cerimonia de posse de
sua cátedra de física teórica na FNFi. O tom nacionalista permaneceu, mas em vez de questionar a plateia sobre o
papel dos cientistas na sociedade, como fez anteriormente, ele preferiu indicar a importância da ciência:

O progresso de um país repousa certamente num equilíbrio sadio entre o espírito científico e o cultivo das letras
e das artes. Este equilíbrio não existe em nosso país. (…) Se nos sentimos justamente orgulhosos dos nossos
escritores e dos nossos poetas e achamos com razão que não saberíamos viver sem tão valioso patrimônio cultural,
por outro lado não devemos nos esquecer de que, sem ciência e sem técnica, no mundo em que vivemos, seremos
incapazes de resolver os nossos próprios problemas nacionais. (LEITE LOPES, 1998, p. 40)

No final de seu discurso, Leite Lopes exibia aquilo que entendemos como nacionalismo científico, ao citar o
poeta Rainer Maria Rilke: “Um trabalho de arte é bom se ele nasce de uma necessidade interior,” acrescentando, logo
em seguida, que: “e a necessidade é melhor se com ela estamos servindo ao nosso país.” (1998, p. 40).

Leite Lopes durante a realização do concurso em que foi aprovado para a cátedra de física teórica na FNFi.

Os planos de Lattes, Leite Lopes e outros para criar um polo onde a física moderna fosse praticada no Rio de Janeiro
foram bem sucedidos. O Centro Brasileiro de Pesquisas
Físicas
foi criado em 1949 e o grupo de Leite e Lattes foi bastante ativo, também, na criação do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq), em
1951.

Anos depois, comentando sua decisão de retornar dos EUA para o Brasil, Lattes registrou pensamento que resume o seu
nacionalismo científico:

Lá ofereceram um lugar, até em Harvard, mas nem pensei nisso, eu queria era voltar para o Brasil. Ninguém foi
para lá [para o exterior] com a ideia de fazer carreira lá. Ninguém queria ficar lá. A gente estava pensando,
vamos dizer em linguagem um pouco patriótica, a gente pensava em melhorar o Brasil. Dá para entender essa frase
nos dias de hoje?

***

Heráclio Tavares, pós-doc pela FAPESP. Instituto de Física da Universidade de São Paulo. E-mail: heraclio.tavares@gmail.com

Antonio A. P. Videira, Professor titular no Departamento de Filosofia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
E-mail: guto@cbpf.br

Bibliografia